Maria das Trevas
Debuxadura de um feminino
Parida de uma megera em fúria
Uma das três foi ela
Desde cedo anoiteceu a manhã da menina
Maldita e espantada por bocas velhas de línguas banguelas
Aos do lado era sempre escurejada
Pensavam: que era uma espécie de múmia de olhar acravado
Sentiam: como se tivesse uma alma fóssil.
Viera natimorta com o azarão do sopro da vida
Uma alegria vazia sobrou do seu sumiço
Foi aos escondos da ensimesmação e não voltou
De alma boa, mas que não se salva
Pôs em pedaços o destino
Derivou em horas cósmicas
Em quilômetros negros
O sol fez do mar um sal
Do pingo calcário surgiram duas pontas
Hordas de tudo foram e não voltaram
Prógonos findaram seus óvulos criativos
E pronotos piscaram em lumens infinitos
De tudo passou pelo furo desentupido do tempo
Solas de couro moeram-se no cetim dos labirintos
Hoje sabe-se que é de cãs carvoentas
Predição de andorinhas no escôo dos fumos
Enfrentando diariamente as braças no fornilho
Impedindo a corredeira da ardência
Numa guerra estertorosa sobre a chapa ferrugenta
Por anos queimados
No mais profundo dos fundos
Aos narizes sonolentos, prudência!
De lá! Cá não sei bem aonde, mas vêem
Emanam suaves lembranças da lenha
Nos mil olhos das fuças que se esterçam
Sentindo as misturadas nos ventos do avesseiro
Existe de certo, mas ninguém encontra o fundamento
Mais que estranhos acossos enovelados
De ter a certeza de perder um meio-dia inteiro
Para o fado do foitoso que tenciona a procura
Querer ver o tijupá é um sonho mal dormido
Não se tem notícias de como é, foi ou se é um futuro
Desvairam uns que dizem saber na dúvida
Se no contra do oco da gameleira
Se na lura do xenartro
Com entrada esgarçada na mão e colmatada pelo musgo
Ou ainda na panela de quase uma jarda mal medida
Com borda amontoada de bolego, feito peão charrua
Um grifo que não se mostra em livro
Lugar que não vai ninguém
Inventam uns, sem propósito ou cargas d’água
Que o estrupício parece um berbigão sem concha
Parece difícil, mas que valha essa tal coisa medonha
E que firmem na afirmação que até voa
Com umas secas asas tingidas cor-sangue
Que precisam ser hidratadas para dar sustentação
Como vela de jangada, só que na maldade
Pois precisa de imolamentos de gargantas
Para distender a nervação da gárgula antes dos seus passeios
Aos olhos? Só a poeira dos presunçosos
O macaco é que tem na austeridade dos galhos
Na proeza fugaz do ir e vir
O testemunho mudo dos seus gritos
Por ouvir calado o medo na cara dos brutos
O deságüe dos risos sem dentes que espantam os bichos
Daquela que ninguém vê. Aquela que se fala demais
Aquela que a balança não pesa mais
Ou vez em quando na barulhada das tralhas
Pra servir a bóia dos de confiança
Uma animalada que surge feito mandraca
Uns meio de fininho, mas que brigam por não sei o quê
Madrugadas bordadas de ganidos
Ela ri um riso franciscano
E eu?
Ainda acredito.
Santo paganismo dos Diabos
Santo Paganismo dos Diabos
Que entre sombras se revelam para poucos
Alguns são… loucos.
Como se faz
Como é difícil essa maldita simplicidade
A origem com sua força gravitacional de toneladas
Desfechos de Joules e Newtons se atritando
Escolhas em que neurônios rangem os dentes
O fio do bisturi cegado pelas ilusões
Quando nada mais restar para ser removido
Nas caçambas do excesso
Eis a paz do crivo criativo

Experiências com sustentação de tela
Chácara Lisboa/2006





